
A Importância do Autocuidado no Trabalho Entre Culturas.
A maioria de nós compreende a importância do autocuidado e o ato de cuidar de si mesmo como uma responsabilidade que afeta o cumprimento da missão. Nosso corpo, nossa saúde, deve ser um instrumento à disposição do Senhor para que Ele nos use de forma eficaz.
“Porque nós somos cooperadores de Deus;
vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus.
Não sabeis vós que sois o templo de Deus
e que o Espírito de Deus habita em vós?“
1 Coríntios 3:9,16.
Neste artigo, meu objetivo não é fundamentar a importância do autocuidado; pelo contrário, parto do pressuposto de que você já entende que seu bem-estar físico, emocional e espiritual afeta diretamente suas relações e seu trabalho.
Estar ciente dessa verdade é um pilar essencial, o primeiro passo para uma vida e um ministério saudáveis. Sem o entendimento bíblico quanto ao cuidar de si como obediência ao Senhor e prioridade para a produção de resultados frutíferos, voltaremos à estaca zero, não sendo assim possível sequer iniciar ou mesmo prosseguir para os próximos passos dessa construção, enquanto mordomia ao Senhor e desfrute de seus resultados.
Mas o que hoje quero destacar são as batalhas que enfrentamos para praticar o autocuidado enquanto servimos entre culturas, especialmente como mulheres multiculturais. Meu objetivo é “normalizar essas batalhas” para:
a) que você compreenda que essas lutas não são exclusivamente suas e que você pode e deve buscar auxílio;
b) para que você se prepare ou prepare aqueles que estão seguindo para os campos transculturais, disponibilizando ferramentas para a construção de uma vida missional saudável;
c) para que, como corpo de Cristo, possamos compreender melhor aqueles que vivem entre culturas e, assim, apoiá-los de maneira empática e eficiente.
Batalhas para o autocuidado?
“Mas esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado.”
1 Coríntios 9:27
Cuidar de si mesmo, com equilíbrio e de forma saudável não faz parte da natureza humana. Independentemente de vivermos em um contexto multicultural ou não, a relação e as crenças a respeito do cuidado de si podem levar o ser humano aos extremos: da falta de cuidado à idolatria do corpo, ambas práticas pecaminosas aos olhos do Pai. Além disso, o autocuidado, por si só, já é uma batalha declarada entre os desejos da carne (preguiça, procrastinação, desorganização do tempo etc.) e os sacrifícios com intencionalidade e disciplina.
Você já reparou que, mesmo compreendendo que ler a Bíblia, orar, descansar, comer bem, fazer exercícios etc. são práticas essenciais para o bem-estar, sente como se estivesse em uma luta para conseguir cumpri-las? Porque, de fato, você está! Nós estamos! Não basta compreender; o cumprimento de ações que promovem o autocuidado físico, espiritual e emocional é resultado do crucificar da carne. Viver uma rotina saudável e equilibrada é o desejo do Criador para nós, e, por isso, é também um alvo constante do inimigo para nos atacar e nos abater. Assim, consideremos o autocuidado como uma batalha para todo cristão—certamente uma batalha não só física, mas também espiritual.
Batalhas para o Autocuidado no Serviço Global
Bem, talvez você esteja se perguntando: se o autocuidado é uma batalha para todos, o que há de especial quanto à mordomia do autocuidado para aqueles que vivem longe de sua cultura ou país de origem?
Com base na minha experiência prática no serviço global, no trabalho de treinamento e cuidado integral de obreiros globais e no compartilhamento de histórias de centenas de mulheres por meio do CMM – Confissões de uma Mulher Multicultural, um ministério de cuidado integral, conexão e capacitação para mulheres e famílias em realidade multicultural, quero abordar aqui algumas das batalhas e desafios específicos que podem ser acrescentados ao Serviço Global.
Sem a pretensão de esgotar os inúmeros desafios que envolvem essa complexa temática, hoje quero apresentar apenas cinco das batalhas para o autocuidado na realidade multicultural, buscando provocar reflexão:
1 – Alta Mobilidade

Um dos grandes desafios de viver distante de nossa cultura é a vida em movimento, consequência da natureza do serviço global. É comum que o trabalhador multicultural tenha uma rotina de viagens e transições: o movimento migratório, o servir em múltiplos lugares, a mudança de cargos entre países, a mobilização e o levantamento de sustento, além das transições por questões de intercorrências, como conflitos, segurança, desastres, situações de saúde, educação dos filhos, entre outros. Dessa maneira, vivemos uma alta mobilidade que afeta o estabelecimento de uma rotina consistente e saudável.
Outro aspecto a ser considerado é que, a cada mudança, o corpo precisa de tempo para se adaptar ao novo fuso horário, clima, alimentação disponível etc. A imunidade pode cair, e a saúde pode ser afetada até que o biorritmo se ajuste e o corpo se sinta confortável com o novo ambiente.
É importante que haja compreensão e aceitação de que a alta mobilidade é parte da realidade multicultural, ou seja, parte de nossa batalha. Mas, mesmo em meio a uma rotina considerada incomum, faz-se necessário desenvolver meios para o autocuidado; precisamos de dedicação e criatividade para responder com atitudes práticas diante das inúmeras transições.
Não podemos aguardar o que talvez creiamos ser a rotina “ideal”, baseados na vida que vivíamos antes do contexto entre culturas, pois é provável que essa rotina jamais chegue. É preciso incorporar práticas possíveis e realistas desde o início, como, por exemplo: priorizar a vida devocional; levar roupas e materiais de exercícios na mala; agendar atividades de cuidado mesmo durante as viagens, enxergando esse tempo como um compromisso; buscar sabedoria para manter uma alimentação saudável, mesmo em ambientes diversificados; priorizar a qualidade do sono e do descanso; planejar um limite de viagens que considere a responsabilidade e a mordomia do autocuidado; educar a si mesmo e àqueles que nos hospedam sobre o motivo e a importância do nosso tempo de autocuidado físico, espiritual e emocional.
2 – A Construção do Pertencimento
Recomeçar faz parte do pacote da vida multicultural, e isso também inclui a construção de novos relacionamentos, um processo que leva tempo. Dependendo da distância linguística e cultural, a consolidação de novas amizades pode levar, em média, dois anos. Assim, especialmente para aqueles que gostam de companhia para se exercitar, não será sábio aguardar todo esse tempo para retomar o cuidado com o corpo, mas será necessário ajustar-se a uma nova rotina e a novas maneiras de praticar exercícios.
Àqueles que renovam suas energias emocionais nas relações sociais e em atividades em grupo, até que novas conexões sejam estabelecidas, é provável que enfrentem uma batalha que só pode ser vencida com paciência e com a graça de Deus—um processo, por vezes, doloroso.
Atividades de descanso, lazer e diversão também podem exigir ajustes, sendo uma batalha mais complexa do que se possa imaginar. Aquilo que você talvez tenha levado uma vida para descobrir e conhecer sobre si mesmo, no novo local provavelmente precisará sofrer mudanças significativas, exigindo resiliência e intencionalidade para redescobrir-se no novo contexto, reconstruir e ressignificar os momentos e atividades de reabastecimento emocional.
A falta de pertencimento nas relações, no ambiente e na cultura é uma grande batalha a ser enfrentada no restabelecimento do autocuidado, especialmente nos primeiros anos. Por isso, é importante ajustar as expectativas e ter uma grande dose de flexibilidade para cuidar de si com intencionalidade e disciplina, mesmo quando ainda distante da zona de conforto e pertencimento.
3 – Desafios Culturais

O conceito de cuidado, as práticas consideradas apropriadas, bem como os padrões básicos de saúde, podem ser diferentes entre culturas. Muito do que se espera quanto ao cuidado pessoal, espiritualidade, descanso etc., como latinos ou como brasileiros, nem sempre é valorizado em outras nacionalidades. Por exemplo, o banho diário não é uma prática comum em muitos lugares do mundo, e, dependendo de onde você estiver, tomar muitos banhos poderá ser visto como um desperdício ou até considerado ofensivo.
Questões de estética e beleza física no Brasil seguem padrões extremos em relação a outros países. Manter as mesmas práticas “de cuidados básicos” anteriores, por vezes, poderá ser considerado luxo e vaidade excessiva. O cuidado com a aparência terá prioridades muito diferentes de cultura para cultura. Compreender esses aspectos será muito importante para uma adaptação saudável e para a manutenção do autocuidado.
Como já pontuamos, cada cultura terá também o seu estilo alimentar. Precisamos estar dispostos e abertos não somente para experimentar novos sabores, mas também para perseverar em um estilo alimentar que ofereça as vitaminas e os nutrientes necessários ao nosso corpo, ainda que sejam gostos estranhos ao nosso paladar.
A prática de exercícios, dependendo da cultura local, poderá ser uma verdadeira batalha. Por exemplo, algumas das minhas amigas que vivem no Oriente Médio precisaram se adaptar ao exercício físico usando burca (vestimenta muçulmana); outras precisaram compreender quais locais e horários permitem que as mulheres se exercitem para se ajustarem à realidade local. No meu caso, em uma vila africana, enfrento a inexistência de academias para musculação, a falta de ruas pavimentadas e de lugares minimamente planos para caminhadas ou corridas, além da falta de privacidade. Essas são algumas das batalhas que enfrento no meu dia a dia para o cuidado físico. Contudo, o Senhor tem me dado criatividade e força. Ele me capacita a prosseguir, focando na verdade de que é vontade d’Ele que o nosso corpo esteja saudável para cumprir a missão com qualidade e longevidade.
4 – Falta da Rede de Apoio

Como mulher multicultural e mãe, talvez esta tenha sido uma das batalhas mais desafiadoras para mim. Saímos do Brasil em 2010 com dois filhos pequenos: um de 5 meses de idade e outro com 2 anos. Eu estava cheia de expectativas irreais e com a mentalidade focada no servir e em dar o meu melhor para o sucesso do nosso ministério. Ainda não havia reconhecido que entendia o meu valor muito mais naquilo que fazia do que no meu próprio ser. Isso me impedia de descansar e estabelecer limites. Eu me sentia escrava das demandas e do fazer.
Além de cansada, eu me sentia culpada de diversas formas: culpa por não estar entregando os “resultados” que eu mesma esperava; culpa por não me sentir a mãe que “deveria” ser naquele momento; culpa por não conseguir ser a melhor esposa; culpa por não me doar à comunidade como gostaria; culpa por desejar retornar para casa e ter uma rede de apoio para ajudar… culpa, culpa, culpa!
A minha saúde foi afetada, mas, graças a Deus, busquei ajuda pastoral, psicológica e da liderança. O apoio e o cuidado que recebi nessa fase me permitiram continuar. As experiências que vivi me fizeram compreender de forma profunda essa realidade de batalha na busca do autocuidado e, pela graça de Deus, me deram autoridade para apoiar e cuidar de outras mulheres de forma efetiva.
A mulher multicultural, o obreiro global, precisa de um preparo adequado não só para aprender a amar o povo que irá servir, mas também para enfrentar a transição e desenvolver estratégias de cuidado que auxiliem na manutenção da saúde física, mental e espiritual. Muitos trabalhadores retornam de forma precoce nessa fase crítica de caos e adaptação, quando mais necessitam de compreensão, acolhimento e cuidado.
Dica de apoio – Livro: Transição Cultural. O passo a passo para uma jornada saudável rumo á nova cultura
5 – Contabilidade Distante
Deus jamais nos prometeu uma vida fácil e sem batalhas ou desafios. Contudo, Ele nos prometeu estar conosco e nos designou para não caminharmos sós. O coração de Deus é que estejamos conectados como um corpo bem ajustado, cuidando uns dos outros.
Na vida multicultural, por causa da distância geográfica, muitas vezes nos afastamos das relações com amigos e até mesmo com nossos líderes e pastores. Nem sempre temos uma liderança próxima que nos cobre contabilidade, especialmente em relação ao autocuidado.
Viver uma vida com contabilidade é essencial para o sucesso do autocuidado, bem como para o estabelecimento de frutos eternos e para a longevidade do ministério global. Precisamos desenvolver relações intencionais quanto a isso.
Relembrando que o autocuidado é contranatural e alvo de ataque maligno, somado aos desafios e às circunstâncias da vida multicultural, que nos impulsionam a desistir, é fundamental nutrir relações de contabilidade que nos auxiliem a cumprir nossa responsabilidade e mordomia no autocuidado físico, emocional e espiritual.
Conclusão
Capacitados pelo Espírito Santo, minha família e eu estamos há 15 anos fora do Brasil. Vivemos em quatro países da África e trabalhamos com o preparo e o cuidado integral de trabalhadores globais há mais de 10 anos. Servimos mais de 850 mulheres (a maioria brasileiras) de diferentes agências e denominações em mais de 60 países, por meio do CMM. Nosso coração pulsa em capacitar e potencializar o serviço global para a glória de Deus. Temos visto e ouvido histórias de vitória, mas também experiências que poderiam ser evitadas se o corpo de Cristo, a igreja brasileira, se mantivesse conectado e compreendesse melhor as necessidades de seus obreiros nas diferentes fases do ciclo da vida missional.
Existem batalhas que são evitáveis, mas também existem aquelas que não são. Entendo que nosso papel como enviadores, em relação ao cuidado, é, primeiramente, nos capacitar para capacitar nossos soldados a evitar as batalhas evitáveis e a se fortalecer para vencer as inevitáveis, provendo “armas” essenciais de defesa e ataque para aqueles que são chamados para a linha de frente.
Quanto a nós, mulheres multiculturais e obreiros em serviço global, devemos buscar preparo e autocuidado intencionais, mantendo relações saudáveis com aqueles que já servem entre culturas e enfrentam batalhas similares. O CMM é um exemplo de espaço de cuidado mútuo e encorajamento, oferecendo oportunidades de cuidado, conexão e capacitação entre mulheres em contextos similares. Mas, independentemente do espaço ou ferramenta que você escolher para seu fortalecimento e cuidado, saiba que caminhar sozinho(a) nesta jornada não é uma opção saudável.
E, por fim, jamais nos esqueçamos da nossa verdadeira batalha:
Finalmente, fortaleçam-se no Senhor e no seu forte poder.
“Vistam toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do Diabo,pois a nossa luta não é contra seres humanos, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais.”- Efésios 6: 10-12
EVENTO
Semana do Cuidado da Mulher Multicultural

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