
O que está por trás do constante desejo de mudança?
Quando falamos dos desafios que enfrentam os FTCs – Filhos de Terceira Cultura (filhos que vivem a infância e/ou adolescência em uma cultura ou país distante do país de passaporte dos pais), um aspecto que precisamos mencionar é a inquietação. O desejo de partir e se mover após o periodo de por volta de 6 meses, um ano, ou talvez alguns anos. A dificuldade de permanecer em um só lugar. O livro “Belonging Everywhere and Nowhere” (Pertencendo a todo lugar e a nenhum lugar) de Lois Bushong, traz exemplos de FTCs adultos que têm problemas sérios em seus casamentos e carreiras profissionais por causa da inquietação constante, característica comum na vida de muitos FTCs.
Lendo o poema de um FTC adulto sobre o “Travel Itch” (Coceira por Viajar) no livro de Lauren Wells, “Raising a Generation of Healthy TCKs” comecei a pensar nessa inquietação em relação a mim mesma. É reconhecido que os trabalhadores estrangeiros, bem como os seus filhos, também sentem a tentação de estar sempre a olhar para o que está para além do próximo horizonte – onde o próximo novo lar estará. É de esperar que, afinal de contas, a maioria iniciou a sua viagem ao estrangeiro como jovens adultos, tendo já deixado a família para fazer uma formação, e depois passar por vários locais diferentes para aprendizagem de línguas e adaptação cultural antes mesmo de se estabelecerem no local de residência, antes de seu primeiro campo de trabalho. E então, depois de alguns anos, não é difícil ocorrer que por diversos motivos os planos mudam, o foco de trabalho pode mudar, e assim são realocados novamente. Tudo se torna parte da norma na vida no exterior.

Certamente foi para nós. Na verdade, quando olho para trás, para a minha vida adulta jovem, o maior tempo que passei em um lugar foi de 7 anos, e sei que é bastante tempo para os padrões de algumas pessoas! Lembro-me de quando estávamos em Viçosa, em um Centro para Treinamento – CEM, há uns 5 anos e comecei a ficar inquieta, meu marido me disse “crie suas raízes e se acomode, porque me sinto muito feliz aqui e não quero me mudar de novo!”. E eu fiz. Acabamos ficando lá 16 anos!
Mas então tudo mudou e voltamos para o Reino Unido. Acho que não estou mais com a mesma “coceira” – mas, para ser sincera, só estamos aqui em Yorkshire há 18 meses e provavelmente ainda não me ocorreu! Mas, de alguma forma, não consigo me imaginar nesta casa até morrer, embora disséssemos que esta seria nossa última mudança. Na verdade, às vezes vejo casas no mercado imobiliário! Eu sei que em minha mente penso sobre isso. Mas talvez sem me mudar geograficamente, sei que quero fazer amigos aqui que durem. No entanto, a pessoa que está se tornando um bom amigo é um brasileiro que poderá se mudar novamente algum dia!!!

Observei minha filha mais nova com espanto e admiração. Ela voltou para o Reino Unido aos 19 anos. Seus primeiros anos aqui foram muito difíceis. Eu sabia que ela estava se esforçando para se estabelecer, era uma luta. Não é uma surpresa que todos os seus amigos eram FTCs adultos! Depois de alguns anos ela decidiu sair de Londres e ir para o norte da Inglaterra, para Lancaster. No início, mais uma vez seus amigos eram FTCs. Mas, ela conheceu o seu namorado, hoje marido, um nativo de Lancaster que nunca morou em uma outra cidade. E ela começou a mudar. Falavam em ir para Espanha depois de terminarem os estudos, mas aos poucos essa conversa foi desaparecendo e agora falam em ficar na casa que eles têm, que amam, para sempre! O que a ajudou a chegar a esse ponto? Ela ama o marido. Ela se sente segura e protegida com ele. Eles aprenderam a valorizar um ao outro e a sempre falar sobre pensamentos, sentimentos e ideias. Ela tem espaço para ser quem ela é.
Confesso que olho para pessoas que cresceram e viveram no mesmo lugar, na mesma casa, durante 30 anos, e isso me surpreende! Mesmo assim, era bom voltar sempre para a casa da minha mãe e sei que nossos filhos adoravam. Minha irmã está na mesma casa em que mora há mais de 30 anos e é um lugar feliz para ela. Mas para mim? Eu iria querer isso? Eu poderia lidar com isso? Tenho uma casa linda com móveis lindos – mas embora eu a adore, poderia sair amanhã, e com prazer! Mas isso é saudável?

Penso que o estilo de vida de ‘nômade global’ tem as suas vantagens. Permitiu tornar-me adaptável – quando os planos são alterados, geralmente não é um grande problema para mim. Recentemente nossa igreja tinha um fim de semana especial planejado, então algo aconteceu e tive que mudar minha participação no último minuto. O pastor me agradeceu por ser tão flexível, mas disse que estava tudo bem e que mudança não é grande coisa para mim.
Lauren Wells fala sobre essa necessidade de mudança que os FTCs muitas vezes sentem e que isso se torna algo desafiador para eles. Ela enfatiza a importância de ajudá-los, ensinando-lhes desde cedo, como gerir a mudança de forma saudável, para que aprendam a controlá-la em vez de se permitirem ser controlados por ela. É importante destacar sobre o cuidado por sair bem de um lugar para o outro quando a mudança de cultura é necessária (usando o modelo do RADAR – reconcialiar, agradecer, despedir, avaliar, reconhecer). Ensiná-los sobre o processo de tomada de decisão, modelando-o para eles. A abordagem saudável à mudança os permitirá a serem adaptáveis de forma positiva, potencializando uma das grandes vantagens que podemos ver no estilo de vida dos FTCs. Eles são adaptáveis, uma habilidade que pode abrir muitas portas profissionalmente, entre outras possibilidades.
Agora, enfrento um futuro incerto. É sempre incerto à medida que envelhecemos. Recentemente meu marido foi diagnosticado com uma doença que pode causar limitações progressivas a ele. Um futuro ainda mais incerto, que eu não posso controlar. Não posso tomar decisões sobre isso. Posso me preparar (acabamos de reformar o banheiro para ser mais acessível), mas tenho que confiar em Deus. Confiar que Ele estará comigo e cuida de nosso futuro. Não preciso viver em inquietação, Ele estará comigo como sempre esteve em todo o passado. Tenho que viver um dia de cada vez e estar pronta para me adaptar.
Olho para os montes e pergunto:
“De onde virá o meu socorro?”
O meu socorro vem do Senhor Deus,
que fez o céu e a terra.
Ele, o seu protetor,
está sempre alerta
e não deixará que você caia.
O protetor do povo de Israel
nunca dorme, nem cochila.
O Senhor guardará você;
ele está sempre ao seu lado
para protegê-lo.
O sol não lhe fará mal de dia,
nem a lua, de noite.
O Senhor guardará você
de todo perigo;
ele protegerá a sua vida.
Ele o guardará quando você for
e quando voltar,
agora e sempre.
Salmo 121 (NTLH)
Janet Greenwood Jan Greenwood. Inglesa, Mãe de três FTCs e avó de 4 netos FTCs. Membro da equipe Philhos, CIM Brasil. Membro de Latin Link e coordenadora de Cuidado de famílias de Latin Link.
Você pode ler muitos outros textos relacionados a este tema no nosso Blog CMM. Clique AQUI
Confira nosso Instagram. Todos os dias tem novidades para você Mulher Multicultal