
Nasci nos anos 70 e cresci em uma pequena cidade do Maranhão, onde o contato com outras culturas era praticamente inexistente. Lembro-me de ter visto, durante a minha infância e adolescência, apenas duas pessoas de culturas diferentes da minha: um jovem americano voluntário na igreja e um indígena que ocasionalmente passava pela rua. Minha primeira conversa com alguém de outra cultura só aconteceu aos 19 anos. Essa era a realidade de muitos brasileiros que cresceram longe das grandes cidades. Mas será que ainda é assim?

Atualmente, vivemos um tempo de intensa movimentação humana. A migração não acontece mais apenas do sul para o norte do nosso continente, mas em todas as direções. Pessoas se deslocam por diversos motivos, cruzando fronteiras próximas e distantes, buscando novas oportunidades e reconstruindo suas vidas onde for possível. Com a globalização e o avanço das comunicações, o contato entre culturas não acontece apenas por deslocamentos físicos, mas também virtualmente. Hoje, podemos aprender sobre diferentes povos sem sair de casa. Agora, até mesmo na minha pequena cidade no interior do Maranhão, hoje encontramos diversos migrantes integrados à comunidade. Nesse cenário, onde nós, famílias multiculturais, nos encaixamos? Quais desafios essa diversidade cultural nos impõe? E, como famílias de trabalhadores globais, o que podemos aportar à Igreja que cresce de forma multicultural?
Diversidade e Interculturalidade
Vivendo fora de nossa cultura, temos a oportunidade de desenvolver um olhar cristocêntrico para o estrangeiro. Afinal, agora somos nós que ocupamos essa posição. Essa experiência nos enriquece profundamente. Ontem, saí do culto no país onde servimos, na África, com o coração transbordando de alegria. Diferente de nós, brasileiros, os africanos crescem convivendo com outras etnias e idiomas. Depois do culto, houve um almoço comunitário, onde nos sentamos em grupos de oito pessoas para compartilhar o mesmo prato. Ao redor dele, estavam sete nacionalidades diferentes. Nos comunicávamos em francês e em linguagem de sinais, pois havia um casal com deficiência auditiva. Ao nosso redor, outros grupos reuniam ainda mais nacionalidades. E assim, esses irmãos convivem em amor e se reúnem todos os domingos para celebrar o Deus das Nações. Como essa convivência é possível?

Esse é o poder da interculturalidade. Ela nada mais é do que Filipenses 2:2-3 colocado em prática dentro da Igreja: “Completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude. Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos.” A interculturalidade está relacionada à multiculturalidade, mas vai além dela. Não se trata apenas de viver entre diferentes culturas, mas de interagir intencionalmente com respeito e aceitação mútua. Significa não considerar sua própria cultura superior à do outro, mas sim estar aberto para aprender uma nova forma de enxergar o mundo.
Intencionalidade e Interculturalidade
Quanto mais nos dispomos a nos integrar à cultura do outro, mais crescemos em experiência, sensibilidade cultural e unidade no Corpo de Cristo. Para ilustrar melhor, podemos comparar a interculturalidade ao casamento entre pessoas de diferentes culturas. A convivência harmoniosa só é possível quando nenhum dos cônjuges tenta impor sua cultura como predominante. Digo isso por experiência própria. Pelo contrário, ambos se esforçam para compreender e integrar elementos da cultura do outro, crescendo juntos no processo. Da mesma forma, a integração cultural em equipes, igrejas ou comunidades multiculturais depende de um coração disposto a receber o que o outro tem a oferecer.

Mas como podemos praticar essa interculturalidade no dia a dia, mesmo sem morar fora? Como igrejas e comunidades locais podem acolher melhor estrangeiros? Como podemos ensinar nossos filhos a enxergar o mundo com essa perspectiva? Pequenas atitudes, como abrir espaço para o diferente, buscar compreensão antes de julgar e ensinar nossa família a se abrir para novas experiências culturais, podem transformar profundamente a maneira como vivemos e servimos.
Resiliência e Interculturalidade
Por fim, lembro-me de uma conversa com uma amiga que está retornando ao seu país de origem após 30 anos morando fora. Falávamos sobre como as transições de quem vive entre culturas são diferentes daquelas que permanecem em seu próprio contexto cultural. Minha amiga, depois de anos integrada a uma nova cultura, agora precisa se esforçar para ter a mesma atitude de Cristo, da qual me referi acima, ao retornar ao seu país. Esse é o chamado constante para a interculturalidade: esteja onde estivermos, o que importa é a disposição do coração para acolher, aprender e viver em harmonia, mesmo quando retornamos ao nosso país de origem. Afinal, se viver entre culturas nos transforma para sempre, como podemos usar essa transformação para amar melhor aqueles ao nosso redor?
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